A REPRESENTATIVIDADE ÉTNICO-RACIAL NA PSICOLOGIA BRASILEIRA: REFLEXÕES SOBRE GÊNERO, RAÇA E PROFISSÃO

A profissão de psicóloga no Brasil é marcada por uma série de complexidades interseccionais que refletem não apenas as dinâmicas profissionais, mas também as questões étnico-raciais e de gênero presentes na sociedade. Como afirmou Bell Hooks, "O privado é político e o pessoal é político. O racismo, o sexismo e todas as formas de opressão são questões sociais que afetam diretamente as experiências pessoais e profissionais das mulheres e das pessoas de diferentes etnias." Na área da psicologia, essa interseção se manifesta de maneira significativa, especialmente quando observamos os dados sobre a representatividade das mulheres e a escassez de informações específicas sobre profissionais negros e de outras etnias.

O livro "Quem é a psicóloga brasileira? Mulher, psicologia e trabalho", organizado por Louise A. Lhullier, oferece um panorama detalhado sobre a presença feminina na psicologia brasileira. Segundo os dados apresentados, 88% dos profissionais em exercício no país são mulheres. Entretanto, ao analisarmos os aspectos étnico-raciais, percebemos que esses números revelam uma realidade predominantemente branca. Dos dados sociodemográficos apresentados, apenas 3% das psicólogas se declaram negras, enquanto 67% se identificam como brancas. Essa disparidade evidencia a persistência das desigualdades raciais no acesso à educação e no mercado de trabalho, mesmo em uma profissão historicamente associada ao cuidado e à compreensão das complexidades humanas.

Além disso, as autoras do capítulo "Trabalho feminino, trabalho masculino: desdobramentos da divisão sexual do trabalho" destacam a feminização da psicologia como reflexo das construções sociais que relegam às mulheres funções ligadas ao cuidado e à esfera privada. A dicotomia entre o espaço público, associado ao trabalho remunerado e à autonomia profissional, e o espaço privado, relacionado ao cuidado da família e das relações interpessoais, contribui para a perpetuação de estereótipos de gênero que influenciam a escolha e a valorização das profissões.

Por outro lado, o texto apresenta reflexões sobre a presença de profissionais negros e de outras etnias na psicologia brasileira, destacando a escassez de dados específicos e a necessidade de ampliar o debate sobre a representatividade étnico-racial na profissão. O curso "Reflexões sobre Racismo e Saúde Mental" e o I Colóquio Racismo, Violência Psíquica são exemplos de iniciativas que buscam abordar as questões raciais no contexto da psicologia, promovendo intervenções e debates que visam ampliar a consciência sobre as interseções entre raça, saúde mental e práticas profissionais.

Diante desse panorama, é fundamental reconhecer a importância de políticas de equidade e inclusão que promovam a diversidade étnico-racial na psicologia brasileira. Isso inclui ações afirmativas nas universidades, políticas de recrutamento e seleção que valorizem a diversidade, e investimentos em formação e capacitação de profissionais negros e de outras etnias. Somente assim será possível construir uma psicologia verdadeiramente inclusiva e comprometida com a promoção da saúde mental e o bem-estar de todos os brasileiros, independentemente de sua origem étnico-racial.


Fontes:


DOI: https://doi.org/10.22481/odeere.v0i4.2361



https://doi.org/10.1590/0104-026X2015v23n1p279x

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